Neville D’Almeida, Os Sete Gatinhos

Adaptando a “tragédia carioca” de Nelson Rodrigues, Neville D’Almeida toca numa espécie de pornochanchada sofisticada, com atores excelentes e diálogos absolutamente memoráveis: “Quem foi que desenhou caralhinhos voadores na parede do banheiro? Quem foi?” (que não existe na peça original – lembrem-se que Seu Nelson não escrevia palavrões) ou “Me chama de contínuo!” estão entre as falas incríveis desse filme de 1980.
Destaque pra Regina Casé – engraçada, espontânea e magrela – e pro malandro carioca perfeito que faz o Fagundão. Adoro Telma Reston como a mãe sexualmente frustrada e Lima Duarte também dá show como o pai de família que ainda crê na pureza da filha caçula, vê sua fantasia ruir quando ela é expulsa do colégio por matar a pauladas uma gata prenha e acaba fazendo da sua casa um bordel de filhas.
O filme usa bem as seqüências de tom cômico, com cenas mais debochadas e soltas. Mas pesa a mão quando tem que pesar, criando imagens fortes e simbólicas em encenação rigorosa. E o roteiro, bem apegado à peça, se encarrega de encaminhar os personagens pro fundo do poço familiar, como era de se esperar.
Filme brasileiro de um tempo bem anterior ao império politicamente correto desse cinema nacional sem peitinho de hoje.
Daniel Filho, Chico Xavier

Chico Xavier, o longa de Daniel Filho que está arrebentando nas bilheterias tem muitas qualidades. Roteiro ao estilo cinebiografia esperta, que consegue misturar fatos importantes da vida do médium superstar de forma coerente (a sacada de partir da entrevista famosa no programa Pinga Fogo é o achado), doses de humor respeitoso, execução com acabamento finíssimo, domínio total do tempo-ritmo.
Quem é daqueles ateus militantes vai achar chatos os momentos Pai Nosso, quem é mais “sincrético” (ou seja a grande maioria do povão brasileiro), pode curtir e se emocionar. O elenco é excelente, com destaque óbvio pro grande Nelson Xavier e pra Cristiane Torloni, pura emoção. Agora, o módulo afetado de Ângelo Antônio, fazendo o médium “jovem” irrita: ilustra demais com vozinhas e jeitinhos desnecessários.
Mas o troféu humor involuntário vai pro Emannuel, o tal guia espiritual de Chico, que aparece como nas descrições que o próprio médium fazia: de toga, cabelo escovadinho, fala mansa, lápis gritando no olho…sei não…soa algo deslocado na mise-en-scene realista (e na maioria das vezes bem inteligente) a que o filme se propõe.
Em resumo, bom entretenimento pra terceira idade (muitos cabelos roxinhos na sessão), filme de apelo popular, bem família, realizado por um artesão que domina o lance de se comunicar com as grandes platéias, e pode sim fazer cinema popular de qualidade.

“Ô Chico, tô dando pinta não?”
Rufus Wainwright, All Days Are Nights: songs for Lulu

Não resta dúvida em mim de que Rufus Wainwright é um dos caras mais incrivelmente talentosos que já vi/ouvi.
Desde que o conheci com Poses, o álbum de 2001, foi uma espécie de encantamento. A voz incrível, de alcance sublime e timbre incomparável, o gosto por uma espécie de pop sofisticado, cheio de referências operísticas e inusitadas, a emoção profunda, algo entre a garganta e o coração. Aquela versão de Hallellluia…de onde vem?
E ainda tem a persona inebriante, bem humorada, exposta e linda. Um dândi de New York, com tudo que essa definição carrega de frescura e contemporaneidade.
Um artista como Rufus, não tem como não amá-lo: ele pode fazer um show com uma banda de rock, tocar suas influências folk familiares, pode compor as canções do recente espetáculo de Bob Wilson (Sonnet, no qual musicou sonetos de Shakespeare), pode estrelar um show baseado no repertório de Judy Garland (Judy!Judy!Judy!), pode compor sua própria ópera (Prima Donna).
E pode lançar um álbum, todo baseado em sua voz e em seus dedos ao piano. Já estou ouvindo All Days are Nights: Song for Lulu, um disco triste que carrega o luto pela perda recente da mãe, em canções de emoção pungente, cortante, na qual a voz teatral de Rufus procura o caminho inverso ao espetáculo. Os sentimentos percorrem as faixas, e as lágrimas de sua garganta refletem as nossas.
O álbum traz três sonetos daqueles do espetáculode Bob Wilson, entre eles o destruidor soneto 29: A Woman’s Face, e mais a ária final de Prima Donna . E mais uma sequencia linda de canções de pouco apelo popular e imensa pulsão criativa (Leonard Cohen disse que ele é o melhor cantor de sua geração e Elton John disse que ele é o melhor compositor, e eu acredito).
All Days Are Nights: Songs for Lulu já está por aí, disponível na rede. É uma experiência para espíritos sensíveis. Evite mandar emails durante a audição.
Martin Scorsese, Ilha do Medo

Ilha do Medo é realmente o triunfo de um realizador virtuoso. Eu, que vinha achando o Scorsese um mala com isso de filme épico e Di Caprio, saí da sessão em estado de puro regozijo cinemático.
Estão ali as obsessões da culpa e redenção características do melhor cinema feito pelo diretor. E mais uma encenação poderosa que liga a força mítica da natureza como analogia para as tempestades de uma mente perturbada.
É monumental, arrebatador, denso, simbólico e nem por isso deixa de ser um entretenimento de primeira, uma peça de suspense e mistério sofisticada e popular ao mesmo tempo, dói e diverte, bem do jeito que este que vos escreve adora.
Sinto-me estranhamente feliz por acreditar em Di Caprio e voltar a amar Scorsese.
Dario Argento, Giallo

Sou fã de Dario Argento, o influente mestre do terror italiano. Seus filmes são incríveis exercícios de estilo, de cenários coloridos, impressionante uso de movimentos de câmera, música poderosa e atmosférica (nos 70 compostas e executadas pelos progressivos góticos Goblin) e roteiros que quase sempre priorizam a lenta construção da angústia.
Os constantes assassinatos são gráficos, e notáveis pelo apuro técnico e criatividade mórbida de sua execução. Em Argento as mortes são inusitadas, às vezes patéticas, invariavelmente violentas.
Giallo, seu longa mais recente, é de 2009 e protagonizado por Adrien Brody. É um suspense policial que carrega a marca inconfundível de seu artesão.
O roteiro, meio esquizofrênico, apresenta poucas revelações, o que demonstra que Argento nunca foi, e continua não sendo, um autor do estilo “redondinho”. Ao contrário a sensação de voyeurismo sádico que a obra provoca, característica do diretor, prende a atenção por si mesma, dispensando surpresas excessivamente narrativas e concentrando o suspense nas ações.
Os traumas de infância, mostrados a partir de flashbacks lindamente fotografados, são a base para a construção das motivações dos personagens, herói e vilão, ligados de alguma forma pelas dores do passado. O final é no mínimo irônico, mantendo a tensão pela via oposta a do clichê.
Interessante que giallo (amarelo, em italiano) se refere ao sub-gênero cinematográfico do qual Argento foi o mais alto mestre. Popular nos 70 e 80, o giallo se caracteriza pela perseguição a um serial-killer, assassino de mulheres, com mortes brutais antecedidas por perseguição, violência estetizada e algun nú.
Geralmente o assassino só é descoberto no final e durante o filme vemos suas luvas pretas de couro apertando o pescoço das vítimas, ou outra solução semelhante.
Giallo, o sub-gênero, influenciou definitivamente o terror moderno. Giallo, o longa, é uma espécie de revisão tardia do movimento, realizada por seu mais importante autor.